Capítulo 2 - Um Grito de Liberdade
- kerberuspublishero
- 25 de dez. de 2025
- 17 min de leitura
Residência dos Cavendish’s
Dentro de uma grande e suntuosa mansão, encontrava-se um homem de monóculo, cabelo grisalho bem-cuidado, barba rala e uma roupa de mordomo.
A mansão possuía em seu salão principal uma espaçosa área onde estavam diversas obras de artes que remetiam ao medievalismo: quadros de batalhas históricas, armaduras medievais e armas arcaicas. De frente para a porta e atrás do homem de monóculo estava uma longa escadaria que se bifurcava em duas escadas menores e levava até o segundo andar da casa. Sua arquitetura deixava claro que quem a fez tentou simular algo próximo da europa durante o século XIV.
O homem não parava de olhar para seu relógio de bolso e bater o seu pé. A sua inquietação era evidente.
— Ele está atrasado até demais. Deveria eu ir buscá-lo? — falou o homem para o nada enquanto olhava para seu relógio.
Quando deu as costas para a porta com a intenção de ir se arrumar para buscar aquele que aguardava, a porta se abriu.
O mordomo ajeitou sua gravata, colocou sua mão direita em seu peito e fez uma reverência:
— Seja bem-vindo, Mestre Will!
Da porta passou um jovem com um cabelo rosa em um penteado um tanto quanto estranho, em sua raiz era liso e bem cuidado e aos poucos ficava desgrenhado, ele possuía um visual destoante do ambiente em que estava. Enquanto a mansão da família Cavendish era extremamente luxuosa, o jovem parecia largado e descuidado com a sua aparência, camisa com um grafite desenhado e letras em algum idioma neo-terráqueo, calça larga e casaco em sua cintura e um piercing labret:
— Fazia tempo que não lhe via, Gérard. Senti saudades durante minha estadia na ordem! — disse Will com uma voz cansada e olhos meio entreabertos.
— Fico feliz, Mestre Will! — o mordomo esboçou um sorriso de contentamento — Como foi sua estadia?
O mais jovem colocou sua bagagem no chão do salão e se espreguiçou:
— Foi cansativa, demorei muito treinando a energia azul, mas o tempo lá foi proveitoso. — o jovem olhava para todos os cantos como se buscasse se acostumar com o seu novo lar.
Gérard apertou algo no vento como se estivesse chamando alguém, e em poucos momentos um outro serviçal chegou para levar as malas para o quarto do jovem Cavendish:
— O que o levou a demorar tanto, Mestre Will? Até onde sei, sua chegada estava programada para duas horas atrás. — deixou claro a sua preocupação.
— Tive problemas com a alfândega, eles viram problemas em eu estar transportando minha daitō-kī. — visivelmente o primogênito estava indignado com esse fato.
Gérard levou a mão ao seu rosto para rir discretamente:
— Bom, Mestre Will. Um menor de idade estar transportando um armamento sobrenatural é no mínimo estranho, não acha? — brincou Gérard
Por um momento, algo veio à mente do mordomo:
— Mas, você não deveria estar portando sua autorização emitida pela Legião. Se estivesse, não sofreria um problema desses, estou certo? — questionou com confusão e curiosidade.
— De fato, está. Porém eu esqueci minha autorização dentro da espaçonave, por sorte conseguiram encontrar e não tive mais problemas, porém isso levou muito tempo. Sem falar no trânsito que enfrentei por alguma confusão em uma das principais ruas daqui.
Will se espreguiçou. E logo após isso olhou ao redor como se estivesse procurando algo:
— É estranho imaginar que algum maluco inventaria de causar confusão logo em uma estação espacial filiada à federação…
Uma voz distante interrompeu o mais novo:
— Estranho de fato é, porém não impossível. Em todo lugar há baderneiros.
O primogênito sorriu e olhou na direção da voz:
— Não esperava ser recepcionado por você… — os dois se entreolharam — Como vai, meu pai?
O de longos cabelos platinados desceu a escadaria e foi ao encontro de seu filho.
Arthur era um homem já de meia-idade, mas com uma beleza sem igual, cabelo loiro platinado liso batendo quase na metade das costas com algumas mechas na parte da frente de seu corpo, e como não mencionar seu topete rebelde? Suas íris eram avermelhadas e sua pele extremamente pálida quase como a de um cadáver. Algo que sempre se destacava em todos que viam Arthur, era a ausência de seu antebraço direito, ele havia sido cortado há muitos anos, porém, muitos esquecem disso, já que com o uso da energia vermelha, ele criou um braço espectral energético que vazava energia constantemente. Suas roupas eram impecáveis: terno preto e um sobretudo azul meia-noite com detalhes bronzeados e o brasão de sua família próximo de sua gola:
— Admito que sou uma pessoa ocupada. Porém, meu único filho chegou de viagem, logo, é meu dever me fazer aqui presente. — o pai se aproximou do filho com um sorriso em seu rosto.
— Hum, tanto faz. O que vamos fazer hoje? — questionou o filho com desdém
— Pensei em iniciarmos o dia em um duelo, o que acha? — desafiou Arthur com olhos cerrados.
O mais novo sorriu:
— Acho uma excelente ideia, meu querido pai!
Residência dos Ferreiras
No quarto dos mais jovens, algo estava acontecendo: música alta e sons de tiros.
Batidas na porta eram feitas, mas logo abafadas pelo som alto.
Em seguida, a porta se abriu:
— Meninos, vamos precisar fazer compras, querem ir conosco? — disse o pai de Matheus, com um pouco de receio de atrapalhar a diversão dos menores.
Pedrinho olhou para o seu primo esperando alguma resposta.
Matheus pausou o seu jogo:
— Quer ir, primo? Se você for, eu vou.
— A gente vai sim, tio.
Os jovens voltavam ao seu jogo após responderem.
Leonardo ficou parado com a porta aberta olhando para os mais novos pensando no que dizer. Ele sabia que tinha que dizer algo, mas faltavam-lhes palavras para tal.
Pedrinho se virou e viu que ele que teria que tomar alguma iniciativa:
— Teteu, eu vou ali no banheiro, tá bom? Volto logo. — o mais novo abriu espaço para o diálogo
Enquanto Pedrinho passava por seu tio, ele fazia um olhar para ele de “Aproveita essa chance”.
Já a sós, Leonardo entrou um pouco mais no quarto:
— Filho, sobre a conversa de mais cedo…
— Tá tudo bem, pai. Eu sei que você não fez por mal, você apenas teme que algo de ruim aconteça novamente comigo. — interrompeu para acalmá-lo.
Matheus sorria para passar positividade.
— Eu sei que errei, meu filho! Não precisa tentar amenizar as coisas. Mas farei o possível para que isso não se repita, está bem? — Matheus confirmou com a cabeça — Que tal a gente comprar alguma daquelas outras máquinas de treinamento para ti? Sei como você gosta.
O filho sorriu, ele compreendia que seu pai sabia bem como comprá-lo.
— Aceito. Mas você que se prepare, pois vou alugar o carinha do setor de equipamentos para treinamento, pois vou escolher a máquina a dedo.
Os dois sorriram um para o outro, e do jeito deles, eles sabiam que tinham enfim se acertado.
O pai saiu do quarto, e pouco depois, Pedrinho retornou.
— Tá tudo bem, primo?
— Tá sim, as coisas já se acertaram! — falou Matheus enquanto sorria contente.

Residência dos Cavendish’s
Já dentro do dojo da mansão dos Cavendish’s, o pai e o filho tiram seus calçados e retiram suas daitō-kī de suas maletas.
O dojo era destoante da mansão, a casa fazia alusão ao medievalismo europeu e a área de treinamento claramente era inspirada no Japão feudal. Feito de madeira e se assemelhando a outros dojos de artes marciais como o kendo. Havia nele diversas outras inspirações à terra do sol nascente, como por exemplo, uma yoroi em um dos cantos do salão.
— Vamos ver o que aprendeu nos últimos quatro anos, meu filho. — falou Arthur enquanto se aquecia.
— Acho melhor vermos se você está em forma, coroa. — declarou com insolência enquanto se preparava.
— Eu não sou velho, sou vintage — sorriu o pai, enquanto o filho mantinha uma feição séria — Tudo bem, sem brincadeiras. Em guarda!
Will mantinha suas pernas juntas, mão esquerda nas costas, daitō-ki em sua mão direita com o braço envergado apontando para seu pai, ou melhor, seu desafiante. Seu semblante era relaxado, porém sua postura era firme.
Já Arthur, possuía feições animosos, um duelo depois de tantos anos sem ver seu filho era a chance perfeita de testá-lo.
Sua postura era de pernas abertas, corpo levemente inclinado na direção de seu alvo, braço esquerdo flexionado levemente inclinado para cima com apenas o dedo médio e o indicador erguidos, já os demais estavam relaxados, seu braço direito empunhava sua daitō-kī, ele estava em uma pose muito semelhante ao esquerdo, os dois apontavam para direções opostas. Sua postura era relaxada.
— Essa não é a postura de um Hanenukai. Traiçoeiro e falsamente posturado. Cirtohai? — questionou o filho com uma rápida leitura.
— É, você até que acertou. Já você, resoluto e inabalável. Muratai? — respondeu com uma nova leitura de estilo.
— Na mosca!
Os dois olharam mais atentamente a forma que suas daitō-ki se energizaram com as suas animas e perceberam que cada um formou um florete. A lâmina de Arthur era vermelha, já a de Will era azul.
O pai sorriu e disse:
— Florete? Uma arma que faz bem o estilo de um Cavendish.
— Veremos quem fará o melhor uso dessa ar-
Antes que concluísse sua fala, o filho percebeu que seu pai fez um rápido movimento com a intenção de desarmá-lo, porém sua postura era perfeita e ele aparou o ataque com sua arma.
— Bem rápido coroa. Vejamos como lida com isso.
Will deu um salto em direção ao seu pai enquanto girava seu corpo em pleno ar e com um rápido movimento ele tentou rasgar a carne de seu genitor com um corte giratório. Entretanto, no último instante, Arthur saltou para trás, mas não sem antes ter alguns fios de seu cabelo cortados pela lâmina energizada.
— Acrobático. Interessante! — exclamou o pai.
— Vamos lá, cadê aquela lenda viva que ouvi falar em nossa ordem? Aquele destinado a liderá-la. Anda logo! Vem com tudo!
Arthur sorriu maliciosamente.
— Tudo bem. Se é isso que você quer.
O pai correu na direção de seu filho e desferiu estocadas que claramente tinham intenção de ferí-lo, mas Will estava atento aos movimentos de seu pai e esquivava dando passos para trás.
Quando estava quase sem saída, o mais novo deu um passo para o lado e girou seu corpo tentando atingir o pai, porém, aquele que ele tanto chama de coroa não estava tão fora de forma quanto imaginava. Arthur envergou todo seu corpo para trás fazendo com que seu corpo tomasse a forma da letra C.
Quase se desequilibrando, Arthur jogou seu corpo na direção de seu filho, chutando seu rosto e jogando-o para trás.
O mais novo checou se havia sangramento e os dois sorriram. O calor da batalha os animava.
Will respondeu chutando o seu pai para trás e tentando cortá-lo a todo custo, mas Arthur sempre esquivava com perfeição. No último golpe, o mais novo perdeu a compostura e agiu como um Hanenukai, ele atacou ferozmente e rasgou o sobretudo.
— É só isso ou tem mais, coroa? — desafiou o filho.
O Senhor Cavendish sorriu enquanto jogava para longe sua veste rasgada.
O pai recompôs sua postura, mas agora ele estava sério.
Uma segunda mão espectral energética se materializou nas costas de Will, e antes que ele desse conta, ela apertou o ombro em que ele empunhava sua daitō-kī com muita força e o puxou com tudo para trás o desequilibrando. Quando o rebelde ia tomar alguma contramedida, seu pai segurou sua cabeça com uma mão e com a outra colocou sua lâmina energética no pescoço do mais novo.
— O que achou disso? — questionou ardilosamente
— Achei a cara da atitude de um Cirtohai, mas algo vergonhoso para um Hanenukai.
O pai riu e largou o filho.
— Mas é claro. Fui treinado por um Cirtohai, eu tinha que aprender algumas coisas com ele, não acha? — brincou em tom de verdade.
Arthur deu a mão para ajudar seu filho.
Will sorriu e usou da ajuda de seu pai para se levantar.
— Até que você continua em forma, coroa. — debochou o filho.
— E você continua insolente como nunca. — respondeu o pai a altura;
Os dois tentavam se segurar, mas soltaram uma leve risada.
Os dois se entreolharam e antes de saírem do dojô, Will abraçou seu pai carinhosamente.
— Senti sua falta, pai!
— E eu a sua, meu filho!
Super 10
Na padaria dentro do mercado estava uma menina de cabelo rosa desgrenhado olhando para os doces enquanto mexia as mãos no ar. Em poucos instantes, ela ficou bem desanimada, seus olhos dourados não eram mais brilhantes como antes.
A jovem usava um short curto, um cropped e um casaco para cobri-la e protegê-la do frio do ar condicionado do shopping.
— Não vai dar para comprar. — falou sem ânimo para o nada.
Sem perceber, a de olhos explosivos foi surpreendida por uma menina com uma máscara escura, coque curto e orelhas pontudas que usava roupas mais leves.
— Tá tudo bem, amiga?
— Que susto, Quézia! Não faz mais isso. — falou a encasacada enquanto saltava de susto e respirava ofegante.
A mascarada riu.
— Desculpa, amiga. Mas o que que houve? — questionou de orelhas pontudas com uma voz amistosa.
— Eu pensei em comprar um brigadeirão para a Rosinha, mas não tô com muito dinheiro para gastar.
A mascarada colocou as mãos na cintura.
— Luh, você está doida? Eu e a mamãe já não dissemos para você não se preocupar com os seus gastos? Você foi demitida, você precisa economizar. — brigou Quézia.
Meio cabisbaixa, Luciane esboçou um sorriso.
Quézia tomou a frente do balcão.
— Moço, bom dia! Me dê um brigadeirão e uma coxinha, por favor.
O rapaz entregou dois sacos para a mascarada.
— O Brigadeirão é para a Rosinha e a coxinha é para você. Eu vi que você não comeu antes de sairmos de casa. — falou Quézia enquanto entregava as comidas compradas.
Luciane sorriu emocionada e deu uma grande mordida no seu salgado.
Ela tentava se controlar, porém algumas lágrimas escorriam de seu rosto e Quézia ia limpá-las.
— Tá tudo bem, amiga. Não se preocupe, tá bem? Vamos procurar a mamãe.
As duas saíam juntas da padaria como boas amigas.
Não muito distante de lá, estava a mãe de Quézia com a Rosinha.
Juliana era uma mulher ainda jovem, não devia ter nem chegado aos seus 40 anos, nem muito alta, nem muito baixa, cabelos curtos escuros, roupas mais novas do que as apropriadas para alguém de sua idade, short verde, camisa de alça preta com desenhos fofos.
Já Rosinha, ainda era tão pequena, não mais do que seis anos, cabelos na altura dos ombros, arrumados, diferente dos de sua irmã, ânimo no olhar e inocência em seu rosto. Uma criança que não conhece a crueldade da vida ainda.
— Olá, meninas, onde vocês estavam? — questionou a Dona Ana.
— Fomos na padaria, mamãe — Quézia olhou para a mais nova e se abaixou pra falar — Rosinha, a Luciane tem uma surpresinha para você. Não é, Luh?
A de cabelo rosado pegou o saco com o doce e entregou para sua irmãzinha.
— O que é, mana? — perguntou Rosinha animada, já abrindo o saco e pulando de felicidades. — Um brigadeirão! Muito obrigada, mana.
Mal recebeu o presente e a pequena já começou a devorá-lo.
— Vai sentar para comer, Rosinha, não coma tão depressa assim. Vai com ela Luciane! — sugeriu Rosana acolhedoramente, quase como uma mãe.
As irmãs foram sentar em um canto lá perto. Enquanto mãe e filha permaneciam juntas.
— Ela se recusou a aceitar ajuda, não foi, minha filha? — questionou a mãe com uma voz acolhedora.
— Sim, mamãe, mas eu insisti. — respondeu Quézia alegremente.
A mãe fez um carinho na filha.
— Fez bem minha filha, você é uma boa menina, assim como a Luciane. O mundo é muito injusto para pessoas como vocês duas.
— Acho que mais para ela do que pra mim — disse Quézia meio triste. — Foi uma injustiça o que houve com a Luciane. Ela foi demitida sem motivo algum. Alguma fofoqueira descobriu que ela já foi presa e espalhou que ela é um perigo na internet e isso chegou nos ouvidos daquele chefe preconceituoso dela. Ele já aceitou ela a contragosto quando soube que ela era uma ruína, ele só queria um motivo para despedí-la e acabou achando.
Quézia cruzava os braços e olhava para o lado chateada.
— A vida não é fácil, minha filha, mas vai dar tudo certo — a mãe colocou a mão no queixo da filha para que ela a erguesse. — Vocês entraram para a academia de cadetes, agora é a hora de provar para todos quem vocês são, não é?
A mascarada já de cabeça erguida esboçava felicidade.
— Minha filha, me faz um favor? Você poderia abaixar essa máscara e me deixar ver um sorriso em seu rosto? — perguntou a mãe com carinho.
Quézia concordou com a cabeça e abaixou a máscara e sorriu.
Era possível ver seu nariz achatado meio deformado. Para quem a vê mascarada, as vezes esquece que ela é filha de uma neo-terráquea com um murmurus.
A mãe estava feliz em ver o rosto da filha depois de tanto tempo. Porém logo foi ouvido alguns burburinhos em direção a menina e ela botou a máscara de novo.
— Eu tenho saudades de quando você conseguia ser você sem medo, minha filha. Mas sei que o bullying sofrido na sua outra escola acabou com você.
A mãe agarrou a filha com força.
— Me desculpa por não poder fazer nada, minha filha.
Quézia sentiu seu ombro molhado e retribuiu o abraço de sua mãe com ainda mais força.
— Você não tem culpa de nada! Você fez o melhor que pode! — consolou a filha.
As irmãs logo voltaram e viram o abraço acalorado de mãe e filha.
— Oieee, tia, voltamos. Tá tudo bem? — questionou Luciane.
— Tá sim, minha querida. Vamos terminar as compras, meninas?
As mais novas se olharam e pularam de alegria gritando em uníssono.
— SIM!!!
Elas claramente não estavam tão felizes, mas precisavam agradar a Dona Ana, e assim fizeram. E a família desajustada voltou às suas compras.
Em outro canto do Super 10
Dentro do setor desportivo do Super 10 se encontravam os Ferreiras.
Pedrinho estava meio perdido, não era exatamente a parte que ele mais gostava de lá, mesmo sendo um titânico e um saltador de grau 1, ele fugia da prática desportiva como o diabo foge da cruz. Ele estava bem mais interessado no setor da comida. Salgadinhos, biscoitos, doces. Sabe-se lá como ele não engordava por nada.
Já Leonardo estava sentado vendo as notícias através do seu implante neural.
E por fim, claro que temos Matheus alugando um funcionário do setor para descobrir o que iria comprar.
— Tem certeza que esse daqui é perfeito para deixar as costas bem definidas?
— Claro, meu jovem, não tem nada melhor aqui para isso — disse o funcionário se esforçando para bater sua meta.
Um outro jovem passava por lá e ficou olhando eles, um dellyblu preto e branco muito musculoso e alto. Ele observava atentamente a conversa, até que decidiu se aproximar.
— Na verdade, aquele dali é bem melhor para as costas! — falava apontando para um maquinário que deixou o vendedor sem saber como responder.
O vendedor tentou retrucar, mas nem teve chance.
— Você apenas está querendo vender o mais caro para o garoto, mesmo sem ser o melhor, não é?
O vendedor sem reação permaneceu em silêncio.
— Confia em mim, man! Eu uso um daquele, e olha como estou! — ele tirou a camisa para mostrar seus músculos e deixou Matheus muito animado.
Após expor seus músculos, o dellyblu teve sua atenção chamada por um funcionário e vestiu sua camisa novamente.
— Como que você conseguiu ficar tão forte assim? — perguntou com os olhos brilhando.
— Bom, man. Ser um titânico de grau 1 ajudou, mas estudar os melhores aparelhos entre os desenvolvidos por todas as espécies é o melhor a ser feito.
Apontando para o aparelho indicado, o dellyblu acrescentou:
— Aquele dali é considerado por alguns neo-terráqueos como uma versão do pulley, mas foi desenvolvido por murmurus, e eles são os melhores para isso, suas costas são sempre fortes pelo seu movimento de voo exigir costas e braços fortes.
Durante a aula sobre musculação, Matheus observava o dellyblu atentamente e muito animado.
— Confia em mim, man! Você vai ter que estudar muito ainda para ficar forte como eu. O cérebro é um músculo a ser desenvolvido, então estuda muito… — por um momento, ele parou — Prazer, pode me chamar de Daraly.
Matheus viu a chance de fazer um novo amigo na cidade e a agarrou.
— Prazer, sou o Matheus. Se importa de trocarmos contato? Adoraria receber mais dicas suas, você entende muito do assunto. Sou meio novo aqui, cheguei hoje mesmo de viagem para estudar na academia de cadetes.
— Caramba, man. Você também vai estudar lá?
— Você também? — questionou Matheus confusamente.
— Sim, man. Consegui uma nota muito boa e fui aprovado na primeira chamada.
Era evidente o espanto de Matheus de encontrar um colega de academia tão subitamente.
— PEDRINHO, VEM CÁ! — gritou Matheus.
— O que foi? Precisava gritar? — respondeu Pedrinho chateado enquanto se aproximava dos dois.
— Se liga, primo, ele também passou para a academia de cadetes que nem a gente.
Os três aos poucos se animaram cada vez mais, contaram as dificuldades na prova de admissão, um pouco sobre a vida pessoal, objetivos e sonhos para o futuro dentro da federação.
Ainda no Super 10
Solane já estava impaciente com toda aquela demora.
— Ainda vai demorar muito, Javier? A gente quer ir comer no Dino’s Burger.
— Paciência, Sol. Com os seus amigos aqui na estação você constantemente vai querer chamá-los para comer lá em casa, preciso deixar tudo bem abastecido — falava Javier sem parar por um instante de fazer as compras. — E bem, quando se tem uma adolescente em casa que mais parece ter uma solitária na barriga, é sempre bom ter comida extra. — completou de maneira quase silenciosa. Porém, não baixo o bastante para os excelentes ouvidos de Melody que riu baixinho em resposta.
Sol percebeu o que sua amiga fazia.
— Tá rindo do que, Mel?
— Nada amiga, lembrei de umas histórias da vovó, só isso. Vamos andando?
Sol confirmou e seguiu adiante.
Não tão distante deles, estava Quézia e Luciane com seus familiares. Melody paralisou por alguns instantes em resposta a isso.
— Gente, vem cá!! — falou baixo o suficiente apenas para Valentim e Solane escutarem ela. — Olhem aquelas duas ali!
Valentim olhou e em resposta:
— Não são as duas alunas problemas da nossa turma?
— Sim! E elas estão perto da gente. Admito que quero saber se é verdade o que dizem, mas acho que seria muito indelicado perguntar isso do nada.
Valentim enquanto olhava para as meninas respondeu:
— Tá louca, Mel? Deixa as meninas em paz! Se elas forem problema de verdade, vai dar ruim, se não, vai ser desrespeitoso.
Não tão longe do trio, a família continuava suas compras.
— Falta muito ainda, tia Juh? — perguntava Rosinha.
— Já estamos acabando, minha pequena. — respondeu Juliana calmamente.
Mesmo não sendo a com melhor audição entre as maestras, Quézia ainda era uma murmurus e ela ouvia bem o que Mel e Valentim conversavam, olhou para os lados buscando algo e percebeu o grupo de amigos olhando para elas.
Os nervos estavam à flor da pele.
— Já chega, eu não aguento mais! — esbravejou Quézia rangendo os dentes.
— O que houve, minha filha?
— Mãe, estamos há uma semana aturando todo mundo ao nosso redor falando pelas nossas costas, agora vão ter que falar na nossa cara!
Quézia a passos pesados e raivosos se aproximou do trio.
— Algum problema comigo ou com a minha família? Se tem fala logo! Que da próxima vez que forem fazer isso, eu responderei com violência. Não aguento mais aturar as pessoas daqui se achando melhores do que nós. — disse Quézia indignada com a situação.
Os amigos se entreolharam procurando como lidar com a situação, já que Javier não estava por perto. E a mais rebelde deles começou a se revoltar com a situação
— QUE FOI? ANDA LOGO! DIGAM QUAL O PROBLEMA! — os ânimos saíram do controle e Quézia gritou com os três.
Mel estava nervosa, mas sabia que ela tinha causado aquilo e tinha que dizer algo.
— É que… eu meio que… não tenho certeza, mas acho que…
— QUE FOI, O GATO COMEU SUA LÍNGUA?! — respondeu aos gritos novamente.
Todos no mercado que estavam ao redor olhavam para aquela discussão assustados.
E em meio a tudo aquilo, algo ainda mais estranho aconteceu. As sombras ao redor do grupo começaram a se mover e se concentrar em Solane, com isso, sua própria sombra aumentou e continuava a aumentar cada vez mais sugando a escuridão que os cercava.
Ninguém percebia essa concentração de sombra, mas logo, algo ainda pior aconteceria.
— Olha só, vou dizer só uma vez, deixem a minha família em paz, ou vão se ver comigo, entenderam?
— Sim, desculpa, não quis ofender. — respondeu Melody.
Quézia já estava se acalmando e indo embora, quando infelizmente, a língua grande de Solane deixou escapar um pouco alto demais:
— Caramba, eu só fiquei curiosa pra saber se a amiga dela era realmente uma assassina. — mesmo que isso tenha sido dito por Sol, algo estava errado, sua voz não era a mesma de antes. Sua voz naturalmente era relaxada e arrastada, mas agora ela era envolvente e ardilosa como a de alguém que gosta realmente de causar o caos a todo instante.
Solane podia não ser a mais cuidadosa, mas ela não era louca de tomar essa atitude repentinamente. Algo de errado estava acontecendo.
Quézia não só escutou o que foi dito, como se descontrolou mais do que devia, ela não estava tão perto, então ela se virou muito rápido e se teletransportou para cima de Solane para atacá-la. Mel foi mais ligeira e tomou a frente tentando impedir uma briga. Mas já era tarde demais.
— Espera! — gritou Mel pouco antes de ser atingida.
Quézia socou sua cara e a jogou contra as prateleiras do mercado, fazendo com que ela batesse a cabeça e ficasse desacordada.
Todos ao redor se assustaram com aquilo, a mascarada sabia que havia exagerado, mas ela nunca mais iria sofrer calada depois de tudo que passou.
~Fim do Capítulo 2~

adoro Quézia, minha personagem preferida