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Capítulo 1 - Um Novo Começo

  • Foto do escritor: kerberuspublishero
    kerberuspublishero
  • 27 de nov. de 2025
  • 19 min de leitura
Uma espaçonave de transporte carregando passageiros para um estação espacial em formato de lua minguante.

Redondezas de Alfa Luna

Ano 2024 D.F.

Em meio a imensidão do espaço, uma grande nave transportando pessoas para Alfa Luna se aproximava, uma grande instalação espacial que funcionava como uma enorme cidade, a nave apenas aguardava a autorização para a sua aterrissagem.

A instalação do ângulo em que a nave estava parecia ser uma lua minguante, mesmo que atuando como uma cidade, Alfa Luna era na verdade um enorme satélite que tinha como foco a hospedagem de uma poderosa academia de cadetes. E nessa nave, havia vários novos estudantes que conseguiram êxito em sua admissão na academia.

— ACORDA, PEDRINHOOO!

— O que é, Matheus? Me deixa dormir!

— Que dormir que nada! Já estamos chegando.

Dentro da espaçonave havia cabines onde aparentemente possuíam isolamento acústico e uma espécie de parede branca até algo próximo de dois metros, ainda possuindo um espaço de mais ou menos meio metro a um metro até chegar ao topo que era  translúcido com um tom azul claro. Elas portavam em seu interior assentos confortáveis e um beliche, cada uma comportando até duas pessoas dentro delas.

Em uma das cabines estavam dois garotos, um que não parava quieto e não saía da janela e outro com os olhos ainda entreabertos e se esforçando para voltar a dormir infrutiferamente. O mais inquieto era Matheus, ele estava de jaqueta preta, possuía o cabelo quase todo preto, porém com algumas mechas vermelhas, seus olhos vermelhos vendiam felicidade e animosidade por onde passava junto do seu longo sorriso que contagiava aqueles ao seu redor. O já quase caindo no sono era o contrário de seu primo, Pedrinho possuía cabelos avermelhados com poucas mechas pretas e uma branca que ninguém sabia explicar de onde veio, fazia uso de um casaco vermelho, tinham um semblante de quem não dormia bem há dias e tinha um dieta terrível que só Deus sabe como ele não engordava, o estoque de salgadinhos da nave quase se esgotou.

Logo atrás deles estava uma cabine com uma menina de cabelo rosa liso sentada sem ninguém ao seu lado que frequentemente balançava a cabeça como se estivesse escutando alguma coisa, essa era Melody, uma jovem que seus belos olhos cor de rosa encantavam a todos e seu belo e bem cuidado rosto fazia dela a mais fofa de todas, ela usava um vestido que trazia um ar de inocência.

Ainda na nave estava um rapaz com o cabelo também rosado, porém com um penteado um tanto estranho, meio liso, meio desgrenhado, não dava para se saber ao certo. Ele estava com uma camisa com um grafite chamativo em alguma língua não-terráquea, uma calça larga e casaco na cintura. O jovem Will possuía um piercing labret e uma feição relaxada.

Além deles, a nave de transporte possuía membros das mais diversas espécies: como achitas multicoloridos balançando seus curtos tentáculos, viduas guardando suas patas para não envenenar ninguém acidentalmente, celemes ocupando uma cabine inteira cada  pelos seus grandes corpos, entre tantos outros, e até vários neo-terráqueos com cabelos indo de tons comuns até cores variadas como azul, vermelho e verde. Bem-vindo ao mundo moderno, onde o cruzamento entre espécies soerguis é banal e o mundo está repleto de novos seres super poderosos

Dos altos falantes da espaçonave, uma voz pôde ser ouvida:

— Atenção, se preparem para a aterrissagem em Alfa Luna. Lembrem-se de checar se não esqueceram algum pertence dentro da espaçonave, caso esqueçam, só retornaremos em uma semana federativa. A companhia Space Mercury agradece a preferência e deseja a todos uma ótima estádia.

Os já descritos e outros tripulantes estavam a desembarcar da nave de transporte e já estavam deslumbrados com quão imenso era o porto espacial de Alfa Luna. Tudo lá era belo e bem cuidado, pois ele possuía atmosfera própria, simuladores de gravidade, áreas verdes bem cuidadas, um céu azul simulado. Muito nela era artificial para ser convidativo para jovens de várias espécies e planetas, mas dando foco para os neo-terráqueos. A estação foi pensada para o turismo, mesmo que um dos focos dela seja treinar novos cadetes para a Federação das Nações Unidas.

— Academia de Cadetes Alfa Luna, estamos chegando! — disse Matheus de maneira confiante e animosa.

Em meio ao porto espacial, Matheus evidentemente estava muito animado, não parava de sorrir e se fascinar com tudo ao seu redor, já o seu primo Pedrinho estava muito cansado pela viagem, mal abria os olhos e andava quase como um zumbi em busca apenas de uma nova cama para se deitar.

— Cadê o ânimo, Pedrinho? — falou Matheus dando um leve tapinha no ombro de seu primo.

— Eu perdi nas duas últimas noites de sono mal-dormidas com o seu ronco e seus gritos vendo anime de madrugada.

— Somos quase adultos agora, vamos morar sozinhos e estudar para nos tornarmos cadetes da federação.

Enquanto Matheus olhava para a paisagem exuberante, Pedrinho olhava à sua frente.

— Eu acho que não estaremos tão sozinhos assim não. — alertou o mais novo enquanto forçava a vista para enxergar o que estava a sua frente.

Enquanto passava por uma mulher de pele parda, vestido azul escuro e cabelo crespo avermelhado que possuía uma placa holográfica dizendo: “Matheus e Pedrinho”. O mais animado parecia não ter percebido ela com sua tamanha animação.

— Por que você acha isso? — questionou Matheus um tanto desatento.

— Porque eu estou vendo a sua babá.

Ao ouvir a fala de seu primo, o mais velho se chocou com uma placa dentro do porto espacial.

De cara chocada e um pouco avermelhada pela batida, Matheus massageava seu rosto enquanto questionava a sua babá:

— O que você está fazendo aqui, Emília? — perguntou espantado e claramente desconfortável com a sua presença.

Pedrinho estava a rir um pouco da situação, enquanto com uma feição acolhedora, Emília dizia:

— Não é óbvio? Achou mesmo que os pais de vocês seriam irresponsáveis de os deixarem sozinhos aqui?

Já com seus planos frustrados e cabisbaixo, o que estava anteriormente animado falou:

— Pelo menos só você veio, né?

 Os seus pais também vieram. — respondeu a babá estragando os sonhos dourados de Matheus

— Vocês não confiam mesmo na gente? — questionou Matheus completamente desanimado e com uma feição desgostosa em seu rosto.

Já de costas, Emília fazia sinal para que os meninos a seguissem.

— Claro que não! — afirmou Emília fazendo com que Matheus sentisse uma flecha atingindo suas costas.

— Anime-se, primo. Vai ser divertido! — tentando animar o mais velho, Pedrinho forçou um sorriso e deu um tapinha em suas costas, mas a realidade é que ele só queria uma cama para enfim descansar.

— Tenho dúvidas. Argh!!!



Condomínio Residencial Portal dos Anjos - Residência dos Villalobos

Sentada em sua cadeira esperando o seu café da manhã estava Solane com seus longos cabelos negros, olhos castanhos e sua clássica feição de que a bateria social está esgotada mesmo mal tendo acordado. Ela aparentemente estava entediada navegando pela internet, quando algo chamou sua atenção.

— Ligação do Valentim a essa hora? — falava ainda meio cansada e bocejando, mas que esforço ela não faria por seu amigo?

A de cabelos longos negros estava vendo uma projeção holográfica de seu amigo Valentim através de seu implante neural.

Do outro lado da transmissão estava um jovem descolado, cabelo azul liso na altura do pescoço, ele estava usando um fone supra-auricular com fio com uma estrela em cada lado no seu pescoço, sabe se lá o porquê, afinal, com o avanço da tecnologia de implantes neurais, até mesmo músicas podiam ser escutadas através deles.

— Já está pronta? — questionou o do outro lado da linha enquanto andava em meio a rua.

— Pra que? — respondeu com uma voz carregada e sonolenta.

— Não acredito que você esqueceu!? — falou o seu amigo indignado.

Mesmo sem se lembrar, algo dizia que ela tinha algum compromisso importante hoje. Até que houve um estalo em sua mente.

— É hoje que a Mel volta de viagem!!! — gritou Solane despertando de sua sonolência interminável.

Valentim estava estalando os dedos para chamar a atenção de Sol através da transmissão.

— Hello! É claro sua sem noção! Temos que comemorar, anda! Se arruma que já estou chegando por aí, vamos sair com ela.

Rapidamente Solane despertava de sua sonolência e começava a correr para se arrumar e em poucos momentos foi até seu mordomo.

— Anda, Javier, temos que correr! — disse Sol apressando-o.

— Nós não, você! Eu já estou pronto. — afirmou com uma seriedade e plenitude no olhar

— Você já sabia que ela voltaria hoje? — gritou ao longe enquanto se arrumava.

— Não é óbvio?

O de barba bem cuidada estava de costas para Senhorita Villalobos enquanto terminava o café da manhã da mais nova sem agilizar suas ações por nem mesmo um momento.

— E por que você não me avisou? — questionou Sol abrindo os braços indignada.

— A Senhorita Vasconcellos é sua amiga há anos e eu que deveria lhe lembrar disso? — retrucou como um tapa na cara.

— Não precisa jogar na cara. Temos que correr.

Do lado de fora do terreno da casa, Valentim já estava pressionando o interfone. Enquanto isso, Sol começava a se agitar e correr pela casa para se arrumar o mais rápido possível. Mesmo com a pressa de Solane, Javier não se apressava e preparava 3 sacos de papel marrom com lanches para Solane e seus amigos.

— Deve ser o Valentim, vamos correr! Rápido! — apressou o mordomo novamente, mas sem resultado, Javier era calmo e era defensor ferrenho da frase “A pressa é inimiga da perfeição”.

— Acalme-se, Sol. Não estamos tão atrasados assim.


O carro já estava passando pelo portão da residência dos Villalobos com Sol e Javier dentro dele. A residência era uma grande mansão de arquitetura moderna de cor branca, o terreno era enorme, dava para se perder facilmente lá dentro, grama bem cuidada, arbustos impecavelmente aparados, e um grande portão de ferro.

— Acelera, Javier! — mesmo depois de anos sendo cuidada por ele, Sol até hoje não aprendeu que Javier nunca se apressa, pois ele nunca está atrasado para nada.


Ao chegar na portaria do condomínio, Sol abriu sua janela e berrou:

— Entra logo, Valentim! Temos que correr para buscar a Mel.

— Não é pra tanto, temos ainda uns 15 minutos até ela chegar em casa. — retrucou Valentim com um sorriso no olhar que acabou por fazer Solane cerrar os olhos zangada.

Em poucos instantes, Valentim adentrou o carro e colocou o cinto.

— Então por que você ligou para me apressar? — indagou ainda revoltada por ter sido apressada.

— Não é óbvio? Você sempre se atrasa. — respondeu sorridente como sempre, mas sabendo que não se deve cutucar a onça com vara curta.


Já entrando nas ruas de Alfa Luna, a vista era belíssima, céu azulado como nunca, árvores das mais diversas variedades sempre bem cuidadas, algumas pessoas brincando no parque, outras passeando com “cachorros”, se é que dá para chamar assim os animais bizarros que a fauna dos mais diversos mundos trouxeram, tudo era belo. Mas os jovens estavam com outra preocupação: Melody Vasconcellos.

— Eu disse que não estávamos tão atrasados assim. — informou Javier sem tirar os olhos da rua.

— Tá, tá. Dá pra vocês pararem de falar? Quero ligar pra Mel. — dizia Solane já impaciente enquanto fazia a ligação através de seu implante neural.

Antes de Melody atender, Sol conectou Valentim a sua ligação.

— MEEEL! — berrou a de cabelos escuros extremamente animada, mal parando quieta no assento.

— Oieee, Gente. Senti saudade de vocês na viagem. — dizia Melody com seu rosto fofo enquanto brincava com uma mecha de seu cabelo.

— Culpe o Tio Ricardo, ele que forçou eu e a Sol a fazermos um intensivo por termos reprovado no primeiro ano da academia. — expôs Valentim desviando o olhar, porém ainda animado por sua amiga.

A mais fofa estava já sorridente do outro lado da transmissão.

— A culpa não é dele se vocês tiraram notas tão ruins — provocou a de vestido

— Ow, não precisa jogar na cara! — reclamou Solane se levantando do assento.


Mel estava olhando atentamente para o lado de fora do carro do outro lado da ligação como se estivesse procurando algo na rua.

— Tô brincando, amiga! — respondeu a de cabelos rosa em meio a risadas.

— Tá, tá, mas como você está? — ignorou Solane estando mais preocupada em matar a saudades do que relembrar o passado na academia.

— Já, já, vamos nos ver e falaremos disso. Preciso desligar, já cheguei em casa, beijinhos! — falou Melody apressada enquanto desligava a ligação e descia do carro.



Residência dos Vasconcellos

O carro dos Villalobos logo estava a estacionar na frente da residência dos Vasconcellos, e em poucos instantes, os que estavam no carro já paravam em frente à casa.

— Vamos logo! Quero ver a Mel, não a vejo há mais de 3 meses. — Falou Solane em meio a correria.

Um homem bem vestido de cabelos e bigode branco bem cuidado abria a porta e dava passagem para os três que estavam do lado de fora. Já dentro da casa, o Senhor e a Senhora Vasconcellos recepcionavam os visitantes, porém, a de casaco roxo não os cumprimentou, pois  corria para ver sua amiga:

A casa era bem arrumada, porém mais parecia uma casa de vó. Móveis vintage, tapetes por todos os cantos e até o bebedouro possuía capinha de tecido costurado a mão. Só que para os mais novos lá presente, isso não fazia diferença, a única coisa que importava era o retorno de sua amiga.

— MEEEL!

Solane agarrou sua amiga com tamanha força e velocidade que as duas quase caíram:

— SOOOL! — gritou Melody animada e quase sem ar pelo abraço apertado. — Vem logo, Valentim! Quero matar a saudade dos meus amigos. — Mel tentava puxar seu amigo pela jaqueta.

Valentim estava animado e rapidamente se juntou ao abraço.


Agora mais calmos e já sentados na sala, os três amigos foram conversar enquanto comiam alguns biscoitos e bebiam refrescos:

— Como foi de viagem, Mel? — perguntou o descolado claramente interessado nas fofocas.

— Foi ótima, na medida do possível. A vovó me levou para um cruzeiro com vários músicos da velha guarda. — respondia Mel enquanto comia um biscoito em formato de estrela.

— Estava cheio de coroas lá? — brincou a repetente.

— Sim. Mas você precisava ver, a vovó conhecia todos lá. E aquela velhinha é porreta, canta bem pra caramba, todos ficaram com inveja dela. — dizia orgulhosa de sua matriarca.

Ainda no clima de descontração da conversa, Mel parecia estar querendo conduzir o papo para um rumo em específico: Ela olhava para todos rapidamente sorria um pouco enquanto bebia seu suco só aguardando a hora certa de falar.

— Mas eu tenho uma pergunta, e a academia? — ela sabia que o assunto era delicado, porém era necessário para seus planos.

Sol e Valentim estavam meio sem ânimo para falar sobre isso, mas logo entenderiam o que a Senhorita Vasconcellos queria com aquela pergunta:

— Bem, não é mistério pra ninguém: reprovamos direto. — respondeu Valentim ainda desanimado olhando para o chão.

— É. Não tivemos nem direito à recuperação. — Sol deu continuidade enquanto mordia um biscoito em formato de coração.

Ainda mantendo o suspense para a sua notícia que traria ânimo para a conversa, Mel continuou insistindo no assunto:

— Uhmmm. Animem-se! Vocês terão novos amigos esse ano.

Solane possuía um semblante de completo desinteresse pelos novos alunos.

— Tanto faz. Não me importo com isso!

Mel demonstrava estar triste, mas era apenas brincadeira, pois a surpresa que ela tinha faria todos se animarem:

— Ai, ai. Sou tão insignificante que vocês nem ligam pra mim. — dizia em tom de ironia e melodrama

— Ahm? — Sol não entendia o que sua querida amiga queria dizer com aquilo.

Dando a volta por seus amigos, a Senhorita Vasconcellos passava os braços por seus ombros e os agarrava animadamente.

— Eu passei na prova, seus bobinhos! — gritou em polvorosa enquanto sacudia seus amigos.



Residência dos Ferreiras

Já dentro de casa, Matheus estava andando de um lado para o outro indignado, e Pedrinho estava sentado junto de seu tio na cozinha.

— Vocês disseram que confiariam na gente! E cadê a confiança? Você, a mamãe e até a Emília vieram juntos para cá. — Os ânimos estavam à flor da pele do mais novo, porém sua voz ainda não estava tão elevada.

— Acalme-se, filho. Você sabe que não viemos para estragar seus planos. — respondeu em tom amistoso, o Senhor Ferreira.

Os ânimos da conversa logo se elevariam ainda mais, e isso logo se apresentaria como um grave problema. 

Matheus começava a apertar o encosto de uma das cadeiras de madeira da cozinha pela parte de cima e uma certa energia avermelhada começava a sair dele e dar certas descargas de energia pela área ao seu redor, uma atingiu a panela de pressão que logo estourou derramando a comida, outra acertava o micro-ondas e seguia a fiação da cozinha explodindo as luzes:

— ENTÃO POR QUE VOCÊS VIERAM? NÃO CONFIAM NA GENTE? — gritou o mais novo furiosamente.

— MATHEUS! — respondeu o pai tentando chamar sua atenção.

— QUE É? — gritou novamente o filho em resposta.

— Primeiro, acalme-se! — retrucou o pai fazendo gestos para que ele entendesse que não tem porque se exaltar tanto.

Matheus soltou a cadeira e ela estava com várias rachaduras na madeira e partes queimadas.

Leonardo fez sinal para que Matheus se sentasse:

O pai estava com uma feição séria para tentar se fazer ser entendido:

— Você se lembra das Leis de Normatização da Sociedade Soergui? — perguntou calmamente.

— Sim, eu me lembro! Como eu poderia esquecer? — respondeu enquanto rangia os dentes e cerrava os punhos.

— Não parece. — falou Leonardo de maneira severa.

O Senhor Ferreira queria se fazer entender pelo filho, então insistiu:

— Lei 89/17: Para todo e qualquer Praga ou Ruína menor de 18 anos completos faz-se necessário o acompanhamento de um adulto responsável. Aquele que for encontrado e não possuir um responsável, mesmo estando portando a sua licença, pode e deve ser detido…

— A pena para tal ato é de 3 meses de reclusão a um ano. — interrompeu Matheus.

A feição do filho aparentava desânimo e apatia:

— Eu disse que sabia, não precisava recitar a lei por inteiro! — informou já mais calmo, porém desanimado

Matheus deu as costas e subiu as escadas:

— Eu vou tomar um banho. — a voz era de cansaço e seu corpo deixava claro que estava exausto.

— Tem placas nas portas dizendo o que é cada cômodo. — informou Leonardo sem olhar para seu filho.

Pedrinho olhava seu primo subir as escadas enquanto conversava com Leonardo:

— Acho que você pegou pesado, tio.

— Eu não acho… Eu tenho é certeza! — respondeu o Senhor Ferreira levando a mão ao rosto e coçando o cabelo logo em seguida.

Emília arrumava as coisas para amenizar a tensão, porém sabia que seria só um paliativo:

— Não se preocupem com a bagunça, eu cuido de tudo. Talvez precisemos comprar algumas coisas, pagar um eletricista, mas está tudo bem.

— Muito obrigado, Emília. Você é incrível. — agradeceu Leonardo com tristeza na voz.

Pedrinho fez menção de subir para o quarto que ele dividiria com Matheus, mas não sem antes falar com os que ficariam no andar de baixo:

— Eu vou subir.

— Tudo bem, cuida dele! — pedia com carinho o tio.

Matheus já em seu banho, com a mão apoiada na parede do box enquanto a água escorria por seu corpo, se lembrava de memórias muito dolorosas.


Ele recordava-se de um dia que dois meninos estavam cuidando de uma menina que deu uma descarga elétrica, a menina estava com a mão queimada. E um dos meninos tentava bater nele com um pedaço de pau:

— Eu só queria lhe dar um abraço. — dizia a menina ferida com uma voz chorosa.

O menino com o pedaço de pau tentou bater em Matheus, mas antes de tocar nele, uma descarga elétrica o afastou e arremessou o pedaço de pau para longe.

O menino já no chão chorava com medo:

— SEU MONSTRO! — disse o caído aos berros.


Já fora do box, Matheus estava se olhando no espelho tentando entender o que havia de errado com ele. E era visível em seu rosto que ele queria chorar:

— Será que eu sou mesmo um monstro? — questionou para ninguém o ruína.

Do lado de fora do banheiro, pedrinho falou:

— Primo, espero que não se importe, mas tirei algumas roupas suas da mala e botei na cama para você vestir.

Matheus limpou seu rosto e respirou fundo antes de falar.

— Obrigado, primo. Me espera no quarto que já estou indo.

Já no quarto com uma toalha em seu corpo e diante de suas roupas, Matheus falou rindo:

— Meu Deus, você me conhece mesmo.

— Mas é claro, te conheço desde que nasci. — respondeu falando a verdade em tom de brincadeira.

O quarto dos adolescentes era simples, mas já tinha cara deles, duas camas cada uma com o lençol estampando os gostos dos dois, a cama de Pedrinho era coberta por um lençol do jogo All-Star Federation, e o de Matheus estampava Perry, o mascote do programa de TV de sua mãe. No quarto estavam vários posters de jogos, bandas, animes e outras várias coisas típicas de jovens. E ainda lá havia uma televisão e um videogame de última geração.

Ignorando as roupas escolhidas a dedo por Pedrinho, o primo mais velho se sentava no chão perto da cama e se encostava nela ainda só de toalha.

— Primo, você sabe como as 8 categorias são chamadas?

Pedrinho fazia uma feição confusa com a pergunta.

— Sei… Eu acho.

Olhando para o teto do quarto, Matheus falou:

— As categorias fundamentais são: Maestro, Mentalista, Saltador e Titânico. Em tempos antigos, pessoas com elas seriam chamadas de heróis e elas facilmente estariam em revistas em quadrinhos.

O mais novo tentava compreender onde seu primo queria chegar.

Matheus olhava para Pedrinho enquanto falava:

— Já nas refinadas temos a Arquiteto, e no limiar do aceitável, a categoria Assombrado

Olhando pela janela, Pedrinho falou sem entender muito:

— Onde você quer chegar?

— Calma! Você entenderá. — Afirmou o mais velho falando como se estivesse algo preso em sua garganta.

Matheus continuava pensativo, olhando para o chão quase chorando novamente:

— E enfim chegamos na Praga e na Ruína, as categorias daqueles que não importam o que façam, eles sempre serão os vilões da história.

O mais velho estava aos prantos olhando para seu primo:

— Não importa o que aconteça, eu sempre serei um monstro!

Matheus juntava seus joelhos ao seu corpo e os apertava com força, ele sabia que era mais que uma aberração que seria usada como arma e seria descartado como tantos outros ruína, mas em meio aquela situação, ele não via esperança de melhoras.

Pedrinho colocou suas mãos nos ombros de seu primo, apertou e dizia confiantemente sem tirar os seus olhos dos de seu primo:

— Não! Você não é um monstro! — falava sem saber ao certo como confortar o mais velho, mas sabendo que o silêncio não era uma opção — Mostre ao mundo o que você é de verdade. Estamos em Alfa Luna, não estamos? E somos cadetes como os outros, fizemos as mesmas provas e passamos por mérito, não foi? — dizia em alto e em bom tom, ele tinha que se fazer ser ouvido — Hoje é o primeiro dia de uma nova era. Vamos escrever juntos o nosso futuro! Vamos nos tornar cadetes da federação!

Matheus já com uma feição muito mais confiante e um brilho nos olhos que havia sido perdido há muito tempo disse com um sorriso no rosto e já se levantando do chão:

— Obrigado, primo. Eu precisava ouvir isso.



A caminho do Super 10

Javier estava a dirigir quando informou:

— Preciso fazer as compras da semana, acabou um monte de coisa.

Ajeitando o retrovisor, Javier disse em tom irônico olhando para Solane:

— Não é, Solane?

— Ei! Eu estou em fase de crescimento. — respondeu falando alto e tentando se defender do indefensável

Ria o motorista enquanto dizia baixinho:

— Não sei para onde.

Riu Melody ao escutar a piada, parecia ter sido a única a escutar.

— Tudo bem. Comprar e depois…

Solane fazia uma pausa dramática para os três em uníssono gritarem:

— DINO’S BURGER!

Melody estava conectando seus amigos em uma transmissão holográfica quando Valentim a questionou confuso:

— O que você irá fazer?

— Irei mostrar o que descobri sobre nossa turma.

Solane demonstrava desinteresse, mal olhava para a transmissão e parecia mais interessada em olhar para rua do que para o que sua amiga queria mostrar, porém Valentim parecia estar animado, tanto que se ajeitou na cadeira para ver melhor.

— Tanto faz, as únicas pessoas que importam eu já conheço. — dizia Sol sem curiosidade alguma sobre seus colegas

— Calma, Sol! Pode ter algum gatinho interessante. — falava Valentim fazendo uma feição pensativa e curiosa sobre seus novos colegas de turma.

Dentro da transmissão, estavam as fotos dos três amigos, Sol estava com cara de cansada e relaxada, Valentim com uma pose bem animosa, e Melody fofa como sempre.

— Aqui temos o de sempre. Sol morta, Valentim aviadado e eu sendo uma graça. — brincou a mais fofa de todos.

Passando para o lado apareciam dois desconhecidos para os amigos, os dois possuíam cabelo preto com vermelho, porém um deles tinha uma mecha branca.

— Também separei outros interessantes, esses dois têm o mesmo sobrenome, Matheus e Pedro Ferreira, fiquei pensando que podiam ser parentes, então fui atrás, e bingo, os pais deles são irmãos, logo, são primos, o mais velho é o Matheus.

Melody passava as imagens rapidamente.

— Tem esses três aqui que também me chamaram a atenção — fez uma pausa e logo deu continuidade — Essa tal de Bárbara é filha de um dos figurões do conselho que mandam em Alfa Luna. — falava de uma moça de cabelo branco liso que desciam pelas costas, corpo voluptuoso e que aparentava ter presas para fora de sua boca —  O Sebastian entrou por indicação assim como você entrou no ano passado, Sol. — dizia sobre um rapaz de cabelo roxo curto e pele de quem não toma sol a dias com cara de ser bem reservado, mas que cuida da aparência — E essa tal de Carol, uhmmm. Ela é meu número. — disse olhando para uma garota mais calma de cabelo curto escuro e pele quase pálida de tão branca com cara de ser meio quieta e quase sem vida no olhar.

— Esse Sebastian, hein? Uhmmm. Será que tenho chance com ele? — brincou Valentim olhando para as meninas. Que o olhavam com cara de quem não aguentava mais ver ele dando em cima de todo carinha um pouco mais atraente.

Mostrando agora o único da turma com aparência não humana, um jovem de aparência muito semelhante a um golfinho humanoide de cores preto com branco, alto e com um corpo bem mais musculoso do que os demais, ele possuía uma esfera azulada presa entre seus peitos que brilhava mesmo por debaixo da sua camisa. Melody olhando para ele disse:

— Esse ano teremos na nossa turma um dellyblu, seu nome é Da… Deo… Daraly… Dre… Draugr, acho que é assim que se pronuncia, sei lá. Meu sohano-dellyano não está em dia.

Todos olhavam para Mel. E ela sentia o peso do olhar:

— O que foi, gente? Só porque minha avó é uma cantora mundialmente famosa por cantar em sohano, não quer dizer que eu tenha a obrigação de saber ler isso não. — Mel ficava envergonhada — Vamos continuar?

Após passar pelo dellyblu, a ainda envergonhada apresentava um jovem negro muito bonito que tinha olhos esverdeados e cabelo preto com verde e algumas tranças em sua lateral esquerda, ele tinham um visual despojado e usava a gola de sua camisa pra cima:

— Esse daí é o Gabriel Torres, não sei muito sobre ele, apenas que tirou uma das melhores notas esse ano e que é filho de um médico bem famoso.

Já falando das duas últimas alunas da turma, Melody concluía:

— E por fim, temos as duas problemáticas da turma: Quézia e Luciane. Fiquei sabendo que elas quase tiveram suas matrículas negadas por terem se envolvido em brigas.

A primeira mencionada possuía cabelos escuros mal chegando ao pescoço, orelhas pontudas e usava uma máscara para cobrir seu nariz e boca. Já a segunda tinha cabelos rosados em um tom mais escuro e na altura da cintura, olhos brilhantes e aparentava estar muito animada.

Valentim demonstrava um pouco de desconforto:

— Você não está sendo cruel demais falando assim, Mel? Eu e a Sol também éramos taxados assim.

— Ei, a gente era diferente. — disse a de cabelos escuros, enquanto os amigos a encaravam com cara de incrédulos. 

Javier a encarava pelo retrovisor.

— Quer que eu mencione as infinitas vezes que fui chamado à diretoria por brigas, insurreição, insubordinação…

— Tá, tá, para, não aguento mais ouvir isso. — Sol não aguentava mais ser lembrada da escola e cortou o assunto antes que se estressasse ainda mais.

Mudando as imagens da transmissão para um site que claramente era muito suspeito, Melody disse:

— Mas é sério, temos que tomar cuidado com elas. Essa tal de Luciane já foi presa duas vezes, tentativa de homicídio e assalto a mão armada.


O novo ano letivo estava prestes a começar, os alunos podiam até achar que seria um como tantos outros, mas logo descobririam que para eles, as coisas seriam bem diferentes. Podiam pensar que se trataria de curtição adolescente em meio às responsabilidades da futura vida de cadetes dentro da federação como tantos outros, mas a verdade é que esse primeiro ano reservava muito mais para eles, muito mais do que qualquer cadete formada viveu em seus anos preparatórios.

Brigas, lágrimas, perdas e guerras fariam parte da vida de muitos deles. Mas se eles sobreviverem a tudo isso, a vida na federação será fichinha. Sejam todos bem-vindos à sua academia de cadetes!


~Fim do Capítulo 1~

1 comentário

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Cabeça de formiga
25 de dez. de 2025
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Que massaaaaaaa

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